Depois de testar, e errar o suficiente, com pilotos de IA, cheguei numa disciplina simples que resolveu um problema que eu via se repetir: o piloto começa com um objetivo, no meio do caminho o objetivo muda sem ninguém formalizar a mudança, e no final ninguém consegue dizer com segurança se "deu certo" ou "não deu", porque ninguém mais sabe dizer o que "certo" queria dizer quando o piloto começou.
A solução que uso hoje é o que chamo de contrato de valor. Antes de qualquer piloto começar, registro numa única página: a dor que estamos atacando, quem é o usuário, qual decisão vai ser afetada por essa iniciativa, a hipótese causal (por que acreditamos que essa intervenção resolve essa dor), a intervenção proposta, a linha de base (o número de hoje, antes de qualquer mudança), os indicadores que vão medir o resultado, os riscos envolvidos e, ponto que muita iniciativa pula, quem é o responsável por efetivamente capturar o benefício depois que o piloto provar valor.
Esse documento não é assinado uma vez e arquivado. Ele acompanha a iniciativa do início ao fim, e é atualizado toda vez que o aprendizado muda a hipótese original, o que acontece com mais frequência do que qualquer time gostaria de admitir. Prefiro atualizar o contrato do que fingir que a hipótese inicial continua valendo quando os dados já mostraram outra coisa.
Uso outra disciplina junto com o contrato, que chamo de gates de evidência. Ao final de cada etapa do trabalho, tomo uma decisão explícita: avançar, revisar, pausar ou encerrar. O critério nunca é "terminamos as atividades planejadas". O critério é: essa etapa reduziu a principal incerteza da etapa seguinte? Se a resposta é não, não faz sentido avançar só porque "já investimos tempo nisso".
O efeito prático dessas duas disciplinas juntas é que elas tiram a subjetividade do final do piloto. Sem o contrato, o julgamento sobre "deu certo" vira uma opinião, geralmente a opinião de quem está mais confortável (ou mais desconfortável) com a mudança. Com o contrato, a decisão final é uma comparação objetiva entre o que a linha de base dizia, o que a hipótese previa e o que os indicadores efetivamente mostraram.
Recomendo começar simples: uma tabela ou um documento de uma página só, sem burocracia extra, com esses 9 campos. O valor não está na complexidade do documento, está em obrigar o time a responder essas 9 perguntas antes de gastar tempo e dinheiro num piloto que pode não valer a pena.
💡 LIÇÃO APRENDIDA
Um piloto sem contrato de valor não termina em conclusão. Termina em opinião.